por Itaan Arruda*
Era 24 de agosto de 1959. O Rio de Janeiro ainda era a capital federal e lembrava os cinco anos do suicídio de Getúlio Vargas. A Rádio Nacional transmitia os discursos inflamados, ampliados no Acre pela Rádio Difusora Acriana.
Mas, em Xapuri, o Padre José não estava muito preocupado com esses movimentos. Acabava de chegar de uma desobriga e já fora informado de uma tragédia.
“O filho do Seu Antônio das Calça Frouxa parece que se afogou, padre. Tá todo mundo pra beira do rio. Um desespero só!”
A batina, sempre cheia de poeira ou lama (dependendo da época do ano), se acomodou na velha Monark cinza e enferrujada. A cena que o padre viu fez jus ao relato que lhe fizeram.
Era fim de tarde de um janeiro estranhamente ensolarado. Na curva próximo à Praça São Sebastião e ao Hospital Epaminondas Jácome, o Rio Acre parecia mais medonho ainda. Cheio. Lento. Ameaçador.
O céu amarelento e vermelho enchia de tristeza as dezenas de cuieiras ainda brutas com pequenas velas dentro. Foi uma cena nunca esquecida pelo velho padre. As cuias com um toco de vela dentro, boiando no meio do rio.
Era um ritual já conhecido: quando ninguém encontrava o corpo do afogado, as cuias com velas acesas orbitavam no local onde se acreditava estar o defunto. Do outro lado do rio, nas barrancas do Seringal Rio Branco, a mãe do menino desaparecido. O grito de desespero se misturava às ladainhas já iniciadas pelas beatas com velas na mão.
As cuias com um toco de vela dentro, boiando no meio do rio. As ladainhas. Os urros de desespero da mãe, magra e desgraçada.
“Não tem choro mais triste”, murmurou o padre entrando na catraia para a travessia rumo àquele desespero. Os olhos do padre atravessavam, rasos.
Prova de amor maior não há/ que doar a vida pelo irmão/ Permanecei em meu amor e segui meu mandamento:/ “Amai-vos uns aos outros como Eu vos tenho amado”.
As cuias com um toco de vela dentro, boiando no meio do rio.
Antônio Calça Frouxa mergulhava como um louco à procura do filho. Emergia para renovar o fôlego e ouvir os lamentos da mulher que gritava na beira do barranco. A noite chegou, lenta feito um rio.
As cuias com um toco de vela dentro, boiando…
Nem nunca, ninguém encontrou o pequeno Daniel, caboclinho miúdo e danado feito um cão. O diabo feito menino, mas que deixava todos alegres por onde andava. Mesmo sem saber nadar ainda, tentou atravessar o rio na pequena canoa. Um balseiro grande bateu no barquinho. Virou. O pai chegava lá em cima do barranco e viu tudo. Desceu aos galopes. Já chorava. Uma vida inteira que virou junto com a canoa.
Também pelos rios, viver é negócio muito perigoso.
Prova de amor maior não há/ que doar a vida pelo irmão/ Permanecei em meu amor e segui meu mandamento:/ “Amai-vos uns aos outros como Eu vos tenho amado”.
* Texto dedicado à memória da Irmã Juliana: uma mulher que, ao seu modo, dedicou a vida a mostrar o Evangelho, subindo e descendo rios.


