Três mil demissões na Construção Civil
O que uma obra parada, assaltos, prisões ou assassinatos têm em comum? A imagem do concreto é fria e nada reflete, mas a descontinuidade das construções pode ter levado muitas pessoas à criminalidade no Acre.
O alerta vem do Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil. A entidade está falida, perdeu quase todos os membros. Atualmente serve apenas para homologação de demissões, e essas, não são poucas: existe um grande volume de papel nos 10 primeiros meses de 2016. Foram demitidos quase 3 mil operários, uma média de 10 pessoas perderam o emprego por dia.
De acordo com os dados do sindicato, esse ano foram apenas 172 contratações para o um setor que chegava a ter 8 mil pessoas empregadas no período de verão amazônico. “Estamos acabados. Os trabalhadores da Construção Civil, que tanto ajudaram o crescimento do Estado, estão destruídos pela falta de investimentos. O pior é que existem várias mentiras sobre novas obras. Elas simplesmente acabaram”, desabafou José Aldemar, presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil.
Muitos desses trabalhadores tiveram que buscar alternativas para manter a família. José Aldemar revelou que encontrou um grupo que foi buscar serviço na área rural, como são poucas as vagas, estão tentando invadir áreas para conseguir um pedaço de terra.
Nossa equipe de reportagem se deparou com um personagem que identifica bem a reclamação do sindicato. O José Lucimar dos Santos, até o ano passado conseguiu uma obra para trabalhar, depois só encontrou empresas com portas fechadas.
Decidiu montar uma banca e está vendendo bombons e cigarros na parada de ônibus que fica em frente à rua que dá acesso a Cidade da Justiça. “Eu não tinha outra saída para sustentar minha família. O jeito foi partir para vender esses produtos. A Construção Civil acabou”, reclamou.
O José Lucimar ainda partiu para um trabalho lícito, mas outros trabalhadores como mestres de obras, pedreiros e operadores de máquina migraram para o mundo do crime. Vários foram presos ou mortos.
Os números do desemprego no Estado acompanham os da secretaria de Estado de Segurança. Só este ano, foram registrados 190 homicídios. Muitos trabalhadores ingressaram em facções criminosas e trocaram as ferramentas de trabalho por armas.
Os roubos e furtos não param de crescer. Todos os dias são arrombamentos a residências e comércios. “Os mais jovens não estão encontrando outra saída. Sem obras, eles pegam corda e partem para a criminalidade. Qual a opção que eles vão ter? Isso mostra que quanto maior o desemprego, maior a violência. Pena que o Estado esconde essa verdade”, declarou José Aldemar.
O sindicato vem denunciando outra prática adotada pelas empresas da Construção Civil que está prejudicando ainda mais os trabalhadores: “Elas vem fazendo contrato de apenas 90 dias. Com isso, deixam de pagar décimo terceiro, férias e a multa de 40% do FGTS”, apontou.
Nas obras que sobraram, os funcionários estão recebendo os salários parcelados porque o governo não repassa os recursos da obra e as empresas deixam de fazer os pagamentos em dia para os trabalhadores.
Com a crise financeira e política do país, as previsões para 2017 não são otimistas. As obras de recuperação da BR-364 podem abrir algumas vagas, mas não serão suficientes para a recuperação do setor.
Os trabalhadores que até dois anos atrás estavam acostumados com os salários agora tentam sobreviver de outras formas e perderam benefícios importantes. Há seis meses o sindicato não pode oferecer os serviços odontológicos, porque falta dinheiro para pagar o dentista.


