Houve um tempo que o Acre estava dividido
Era o ano de 2002. O então governador Jorge Viana vivia um cotidiano recheado de paradoxos. No auge da popularidade, mantinha relações tensas com setores específicos da imprensa. Na esfera política, o Movimento Democrático Acreano era a pedra no caminho petista.
Nesse cenário, o Gabinete Civil criou uma solenidade chamada “Plenárias Populares”, com o argumento de “ouvir as demandas da comunidade e saber se o povo aceitaria a candidatura de Viana à reeleição”. Claro que ninguém do governo admitia que se falasse que o ato já era uma campanha antecipada. O TRE, entrincheirado, guardava a cartada fatal para mais tarde.
O fato é que o mote era perfeito: governador jovem, charmoso, gestão com aprovação popular e viagem nos 22 municípios garantida para “conversar com as pessoas”. Era a época do “não administrar, mas cuidar do Acre”. Leitor de jornal, que é bicho de boa memória, lembra bem da época. O município do dia era Porto Walter, o segundo da região do Juruá naquele fim de semana.
O governador Jorge Viana sempre foi homem que valorizou os eventos públicos. Qualquer que fosse e onde fosse. Tudo tinha que sair como planejado. Tudo tinha que funcionar bem, por mais simples que fosse o ambiente. E isso exigia muito da equipe do gabinete.
Três aviões acompanhavam a comitiva: um ocupado com o governador e assessores mais próximos; outro com assessores políticos e parlamentares e a terceira aeronave com jornalistas e assessores de imprensa.
Logo cedo, o grupo partiu de Cruzeiro do Sul onde pernoitou. O prefeito de Porto Walter na ocasião era Neuzari Pinheiro, um dos raros aliados no Juruá de então. Havia tensão no ar devido à polarização criada pelo MDA em uma região com hegemonia dos partidos de oposição a Jorge Viana: houve uma época recente que o Acre estava dividido.
A primeira aeronave surge nos céus de Porto Walter. Era o governador chegando. Comunidade mobilizada desde o dia anterior. O único ginásio da cidade cheio de gente dos mais distantes rios. Era um dia de festa. Todos queriam “ver o gunverno”. O primeiro avião pousa.
Nesse momento, um eufórico Neuzari não contou conversa. Ordenou a um assessor já a postos. “Solta os fogos, menino!” Parecia que Porto Walter ia explodir. Poh! Poh! Poh! Poh! Poh! Foram centenas de fogos de artifício. Pela fumaça, seria possível dizer, sem exagero, que chegou à casa do milhar.
Para uma cidadezinha daquelas, aquele ambiente era emoção pura. Poh! Poh! Poh! Poh! Poh! A aeronave estaciona na pista. O primeiro a sair foi o assessor político Carlos Alberto Araújo. Mais conhecido como “Cacá, o Príncipe”. Bolsa a tiracolo, o elegante chapéu Panamá sempre companheiro. Ao pisar na pista, o Príncipe apressou-se ao encontro do prefeito.
“Neuzari, cabra véi! Pelo amor de Deus, homi. Não era para soltar esses fogos agora, não! O avião com o Jorge tá vindo aí atrás”. Nesse momento, o céu de Porto Walter era só fumaça.
Os fogos de artifício foram tantos que, para o avião do governador pousar, foi preciso ficar fazendo voltas em torno da cidade, esperando a fumaça dispersar. Jorge Viana esperou, no ar, cerca de dez minutos.
“Ah! Cacá! Agora lascou-se tudo! Não tem mais nem um traque”, avisou o prefeito, já abrindo a segunda carteira de cigarro do dia. “Não tem como comprar, não, em algum lugar por aqui?”, desesperou-se o Príncipe.
Cacá viu o ridículo da pergunta diante da situação e do lugar. Agora, não tinha mais jeito. Era relaxar. A emoção dos fogos foi destinada para a pessoa errada. Naquele dia, Jorge Viana ficou quase toda a solenidade com a boca arqueada para baixo, cacoete típico quando está raivoso. Cacá ria. Era o que restava ao Príncipe fazer naquele dia.


