Operação Lares executa despejo de famílias do conjunto
“Covardia. Porque tanta gente precisando de uma casa, morando no alagado e as pessoas se aproveitando”. O trabalhador da construção civil Luiz Oliveira definiu bem o que a polícia descobriu através da Operação Lares. A covardia cegou os olhos de quem participou da compra e venda de casas populares.
Mas, quem morava perto dos compradores percebia que alguma coisa estava errada. O Conjunto habitacional surgiu para abrigar famílias de áreas de risco, especialmente da Baixada do Habitasa e Cadeia Velha, mas muitas famílias que moravam ali tinham vindo de outros bairros, com perfil social, bem diferente.
“Pegamos três alagações seguidas, então quando você vem desses lugares não tem condições de ir botando gradeamento, portão eletrônico e tanta coisa”, opina.
Na última quinta-feira (12), a Polícia Civil deflagrou a terceira fase da “Operação Lares”, onde foram cumpridas 74 ordens judiciais e 37 pessoas, acusadas de comprar casas populares, foram conduzidas para prestar depoimento. De acordo com a investigação as unidades eram negociadas em valores entre 20 e 30 mil reais. A Justiça deu um prazo de 48 horas para deixar os imóveis.
Os moradores não gravam entrevista, mas relatam o que vem acontecendo. As mudanças dos móveis e pertences pessoais aconteceram nesses dias, a maior parte, durante a noite. Talvez pela vergonha, ou pela covardia.
Na casa 18 da quadra 20, segundo vizinhos, morava um jogador de futebol, de um clube conceituado da capital. Ele não era de área alagadiça e tinha outra casa em Rio Branco. Teve tempo de tirar as grades da casa, e saiu a noite.
Em outra residência que foi esvaziada nos últimos dias, morava um casal, beneficiado também por um dos presos na Operação Lares. Eles não teriam pagado pela unidade habitacional, mas receberam ilegalmente. A mudança foi levada para a varanda de um vizinho.
Casas de esquina são destinadas pelo governo federal para cadeirantes, pessoas com outras necessidades especiais e idosos. Uma delas teria sido vendida para um servidor de carreira do Depasa. No local, calculamos investimento aproximado de R$ 50 mil em varanda, aplicação de cerâmica, construção de um closet para a mulher do suposto dono e a ampliação de um quarto. A moradia tem grade de cima a baixo.
E quem vai saindo, também deixa outras marcas. Em outra casa de esquina, o comprador levou consigo as grades do muro e o portão. Até as telhas da garagem foram arrancadas.
O perfil das unidades habitacionais vendidas irregularmente, não causa suspeita, é evidência pura de corrupção. Muros altos, grades reforçadas, espaços ampliados e investimento, muito investimento.
Luiz Oliveira sugere novas investigações. De acordo com ele, a fraude não termina por aí. “Tem gente alugando casa. O dono não mora dentro”, afirma.


