{"id":99389,"date":"2022-08-04T11:46:37","date_gmt":"2022-08-04T16:46:37","guid":{"rendered":"https:\/\/abarevegan.com.br\/?p=99389"},"modified":"2022-08-04T11:46:37","modified_gmt":"2022-08-04T16:46:37","slug":"notas-sobre-a-invisibilidade-indigena-nos-escritos-brasileiros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/nk7-testes.com.br\/agazeta\/notas-sobre-a-invisibilidade-indigena-nos-escritos-brasileiros\/","title":{"rendered":"Notas sobre a invisibilidade ind\u00edgena nos escritos brasileiros"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><!--more-->O poeta Roraimeiro Eliakyn Rufino, em suas escritas Macuxis, descreve<em> que todo Brasileiro \u00e9 \u00edndio, e \u00edndio j\u00e1 fomos milh\u00f5es<\/em>, retratando a constru\u00e7\u00e3o da diversidade \u00e9tnica brasileira a partir de uma reafirma\u00e7\u00e3o de nossa identidade cultural, insistentemente ocultada e apagada: a nossa raiz ind\u00edgena.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Brasil, todo mundo \u00e9 \u00edndio, exceto quem n\u00e3o \u00e9, assim falou o antrop\u00f3logo Eduardo Viveiro de Castro em carta publicada pela revista Veja em 03 de maio de 2010. Partindo da forte afirma\u00e7\u00e3o de Viveiros de Castro, discorro um pouco da raiz do <em>parente<\/em> <a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>que vive em nosso cotidiano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A antrop\u00f3loga Manoela Carneiro da Cunha enfatiza o pensamento sobre o ind\u00edgena a partir do mito do bom selvagem: de que o \u00cdndio amigo aceita a coloniza\u00e7\u00e3o, a l\u00edngua, a religi\u00e3o; e o \u00edndio inimigo repele o conceito colonial, \u00e9 arredio, luta pela sua cosmologia, pela sua cultura, por sua terra. A autora afirma que: <em>se vende que o \u00edndio n\u00e3o tem hist\u00f3ria, que tem apenas etnografia. E que a hist\u00f3ria \u00e9 para os brancos.<\/em> E nesse contexto, o Professor \u00c2ngelo Em\u00edlio da UFPB, traz \u00e0 baila que o que se vendeu em nossa historiografia oficial \u00e9 que ao longo do tempo apenas o pioneirismo dos brancos, a ideia do europeu, prevalece sobre a historiografia de nossos povos origin\u00e1rios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O artigo <em>O \u00edndio como met\u00e1fora: Pol\u00edtica, modernismo e historiografia na Amaz\u00f4nia nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX<\/em>, do historiador Aldrin Moura de Figueiredo da UFPA, apresenta uma an\u00e1lise da constitui\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica indigenista na Amaz\u00f4nia dos anos de 1920, \u00e9poca em que as etnias ind\u00edgenas do Gr\u00e3o-Par\u00e1 especialmente os Urubu-Kaapor e aos Temb\u00e9 enfrentavam um processo de viol\u00eancia simb\u00f3lica ocultada pela pacifica\u00e7\u00e3o. O foco central do debate gira em torno das simples not\u00edcias de avan\u00e7o da coloniza\u00e7\u00e3o na regi\u00e3o, estavam as pol\u00eamicas sobre o destino dos ind\u00edgenas, principalmente nos debates entre o etn\u00f3logo alem\u00e3o Curt Nimuendaju e o intelectual paraense Jorge Hurley e que, no fundo, ampliavam-se para uma reflex\u00e3o pol\u00edtica indigenista inexistente na \u00e9poca e uma opera\u00e7\u00e3o historiogr\u00e1fica sobre a constru\u00e7\u00e3o de uma identidade nacional e o futuro da forma\u00e7\u00e3o social brasileira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em nossa cl\u00e1ssica e culta literatura Oitocentista, a obra O Guarani de Jos\u00e9 de Alencar de 1857, narra a epopeia de Peri, um ind\u00edgena Goytacaz que \u00e9 apresentado como her\u00f3i da narrativa e que se apaixona por Cec\u00edlia de Mariz (conhecida como Ceci, termo derivado do tupi antigo sasy, &#8220;a dor dele&#8221;: no caso, a dor de Peri por n\u00e3o ver correspondido seu amor por Cec\u00edlia). Nessa narrativa, a constru\u00e7\u00e3o do personagem ind\u00edgena Peri \u00e9 apresentada como um cavaleiro portugu\u00eas medieval no corpo de um selvagem, ocultando os tra\u00e7os ind\u00edgenas e exaltando de forma oculta, os tra\u00e7os culturais europeus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A mesma constru\u00e7\u00e3o europeia ocultando os tra\u00e7os ind\u00edgenas \u00e9 apresentada em <em>Iracema<\/em> do mesmo autor. Nessa obra, temos uma ind\u00edgena Tabajara que se apaixona por um portugu\u00eas, mas como ela era virgem e detinha o poder da Jurema, n\u00e3o poderia se envolver com Martin, por\u00e9m, eles acabam tendo um relacionamento, e Iracema entrega sua honra a Martin, gerando Filho Moacir, o Primeiro brasileiro, um brasileiro de ra\u00edzes ind\u00edgenas e colonizador portugu\u00eas, descrito na obra como <em>\u201cprimeiro filho que o sangue da ra\u00e7a branca gerou nesta terra da liberdade\u201d<\/em> e d\u00e1 origem, no plano m\u00edtico, a um novo povo e a uma nova na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ou seja, n\u00e3o se fala da brasilidade a partir dos ind\u00edgenas no romantismo brasileiro, mas sim de uma brasilidade a partir da vis\u00e3o europeia, de um tipo ideal pensado com tra\u00e7os e mentalidades de um europeu, uma imposi\u00e7\u00e3o de uma branquitude que nega nossos tra\u00e7os ind\u00edgenas e que parte de uma vis\u00e3o de um povo civilizado, cat\u00f3lico europeu, com lei, f\u00e9 e rei.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Qual papel do ind\u00edgena na sociedade Brasileira? Bem, Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio, em seu Projetos para o Brasil de 1763, descreve um c\u00f3digo de conduta a qual a sociedade brasileira colonial deveria ver os povos ind\u00edgenas. Sobre os ind\u00edgenas, Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio defendia uma pol\u00edtica para acabar com as l\u00ednguas nativas e ensinar o idioma portugu\u00eas, com intuito de acabar com o que ele entendia ser a ignor\u00e2ncia e o atraso, seguindo aquela vis\u00e3o antropol\u00f3gica evolucionista e eurocentrada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa perca for\u00e7ada de uma identidade linguista, acarretou em uma perca de identidade ind\u00edgena por parte da popula\u00e7\u00e3o, tendo como ponto de partida a proibi\u00e7\u00e3o do idioma nativo e a implementa\u00e7\u00e3o do Nhengatu<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a> como l\u00edngua intermediaria. No livro O combate dos soldados de Cristo na terra dos papagaios, Silvio Coelho dos Santos, nos apresenta relatos de como a Companhia de Jesus, em miss\u00f5es pelas terras brasileiras, se utilizaram da religi\u00e3o para catequisar e colonizar o ind\u00edgena.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Partindo dessa premissa, prevalece em nosso cotidiano aquela vis\u00e3o etnoc\u00eantrica do mito do incapaz, de que o ind\u00edgena, por n\u00e3o ter e n\u00e3o representar aquela divis\u00e3o social de trabalho com base no capitalismo industrial, \u00e9 pregui\u00e7oso, boa vida e etc&#8230; Esse senso comum est\u00e1 presente inclusive nos relatos cronistas e na hist\u00f3ria oficial brasileira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E nos s\u00e9culos XX e XXI? Bem nesses s\u00e9culos, quest\u00f5es sobre o que \u00e9 ser o ind\u00edgena e qual suas rela\u00e7\u00f5es com o territ\u00f3rio continuam presentes em nosso imagin\u00e1rio. O primeiro marco desse novo pensamento surge a partir dos contatos do Sertanista Marechal Candido Rondon entre 1907 e 1915. No processo de coloniza\u00e7\u00e3o do Brasil, Candido Rondo passa a ter contato com etnias at\u00e9 ent\u00e3o desconhecidas como os Bororo, Terena e Nanbiquara. O contato de Rondon com as popula\u00e7\u00f5es partia do lema positivista: Morra se necess\u00e1rio, mas nunca mate.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O livro Tristes Tr\u00f3picos de Claude Levis-Strauss de 1955, em sua narrativa romanceada baseada em sua viv\u00eancia com os povos ind\u00edgenas no Brasil, foi a primeira a cr\u00edtica a respeito da pol\u00edtica brasileira quanto aos povos ind\u00edgenas, apontando uma vis\u00e3o de que no Brasil se tem um olhar branco colonizador e preconceituoso com os ind\u00edgenas, e nos pautamos em destruir, matar e eliminar, a velha l\u00f3gica do colonialismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos anos 80 passa a existir um novo protagonismo ind\u00edgena voltadas aos trabalhos antropol\u00f3gicos. H\u00e1 um encontro entre a antropologia, hist\u00f3ria e etnografia, junto a um resgate do real papel do ind\u00edgena na constru\u00e7\u00e3o do Brasil, o que Manoela Carneiro da Cunha aborda como o papel dos povos ind\u00edgenas na constru\u00e7\u00e3o do pa\u00eds.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 a partir da d\u00e9cada de 1990 que a academia come\u00e7ou a publicar e divulgar as popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas, nesse processo de descoloniza\u00e7\u00e3o. Hoje a literatura ind\u00edgena \u00e9 escrita e difundida a partir do olhar do pr\u00f3prio ind\u00edgena, lendo e conhecendo sua cultura a partir de seu olhar. Autores como Ailton Krenak, David Kopenawa, Julie Dorrico, Daniel Munduruku, Feliciano Lino Dessana, dentre outros, buscam romper com o pensamento hegem\u00f4nico de apenas um olhar para hist\u00f3ria, e nos presenteiam com suas cosmovis\u00f5es e diversidades de mitos de nossas sociedades ind\u00edgenas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os bois de Parintins, em especial o meu Boi Garantido, cantam e exaltam a resist\u00eancia dos povos ind\u00edgenas desde \u00e0 d\u00e9cada de 1980, exaltando em suas letras e em seu teatro de c\u00e9u aberto os mitos, a inicia\u00e7\u00e3o, a uni\u00e3o, os rituais, as cren\u00e7as, as curas, a for\u00e7a, a f\u00e9, a vida ao <em>som de flechas e marac\u00e1s. <\/em>Utilizando da festa folcl\u00f3rica como instrumento de afirma\u00e7\u00e3o de nossa identidade ind\u00edgena.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>&#8211;<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ALENCAR, Jos\u00e9 de. Iracema. 1991.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ALENCAR, Jos\u00e9 de. O guarani. 1996.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CUNHA, Manuela Carneiro da. Hist\u00f3ria dos \u00edndios no Brasil. In: <strong>Hist\u00f3ria dos \u00edndios no Brasil<\/strong>. 2009. p. 609-609.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">DE FIGUEIREDO, Aldrin Moura. O \u00edndio como met\u00e1fora: pol\u00edtica, modernismo e historiografia na Amaz\u00f4nia nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX. Projeto Hist\u00f3ria: <strong>Revista do Programa de Estudos P\u00f3s-Graduados de Hist\u00f3ria<\/strong>, v. 41, 2010.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">DOS SANTOS, Silvio Coelho. O combate dos soldados de Cristo na terra dos papagaios. <strong>Anu\u00e1rio Antropol\u00f3gico<\/strong>, v. 3, n. 1, p. 331-333, 1979.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">L\u00c9VI-STRAUSS, Claude; BASTARD, Noelia.\u00a0<strong>Tristes tr\u00f3picos<\/strong>. Eudeba, 1970.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SILVA, Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio de Andrada; DOLHNIKOFF, Miriam. Projetos para o Brasil. S\u00e3o Paulo: Cia. da Letras, 1998.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">DOS SANTOS, Silvio Coelho. O combate dos soldados de Cristo na terra dos papagaios. <strong>Anu\u00e1rio Antropol\u00f3gico<\/strong>, v. 3, n. 1, p. 331-333, 1979.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">RONDON, C\u00e2ndido Mariano Silva; DA SILVA RONDON, C\u00e2ndido Mariano; BR\u00c9SIL. <strong>Conselho Nacional de prote\u00e7\u00e3o aos \u00edndios<\/strong>. \u00cdndios do Brasil.1953.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>&#8211;<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> \u00c9 comum que ind\u00edgenas de povos distintos tratem uns aos outros pelo termo \u201cparente\u201d, mesmo n\u00e3o havendo la\u00e7o consangu\u00edneo direto. Trata-se de uma categoria nativa, atrav\u00e9s da qual os representantes de diferentes povos reconhecem-se uns aos outros enquanto ind\u00edgenas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> A l\u00edngua nheengatu, tamb\u00e9m conhecido como l\u00edngua geral, l\u00edngua geral amaz\u00f4nica ou tupi moderno, \u00e9 uma l\u00edngua ind\u00edgena pertencente \u00e0 fam\u00edlia tupi-guarani, sendo ent\u00e3o derivada do tronco tupi.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>&#8211;<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Luciney Ara\u00fajo Leit\u00e3o \u00e9 natural de Itacoatiara\/AM. Professor EBTT de Sociologia na Universidade Federal do Acre. Atua na \u00e1rea de ensino\/pesquisa e extens\u00e3o no grupo GESCAM\/UFAC, NEABI\/UFAC e Di\u00e1logos UNSL\/RO. \u00c9 colaborador da revista eletr\u00f4nica latino-americana Armadeira Cultural, e do grupo SetorNorte.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"O poeta Roraimeiro Eliakyn Rufino, em suas escritas Macuxis, descreve que todo Brasileiro \u00e9 \u00edndio, e \u00edndio j\u00e1 fomos milh\u00f5es, retratando a constru\u00e7\u00e3o da diversidade \u00e9tnica brasileira a partir de uma reafirma\u00e7\u00e3o de nossa identidade cultural, insistentemente ocultada e apagada: a nossa raiz ind\u00edgena. 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