Perigo
O discurso/desabafo do candidato ao Senado pela Frente Popular em Sena Madureira Ney Amorim, na noite desta sexta-feira (21), mostrou que ainda há fantasmas perigosos que permeiam a política acriana. Ele falou com emoção. Não conseguiu esconder o embargo na voz. A boca disse do que estava cheio o coração. E o que ele falou é que se pensava estar longe da política regional. Vê-se que não.
Perigo II
Aliás, a Política é uma ciência que concretiza, como poucas, a ideia de necessária vigilância para que erros e fantasmas perigosos das relações de poder não voltem à rotina.
Transcrição
Aqui vai o principal trecho transcrito da fala de Ney Amorim.
“Alguns que caminham do meu lado… alguns… não estou dizendo todos… para dar uma palavra de ordem… que não era para me ajudar… não tem problema nenhum… façam o que as suas consciências mandam. Eu, Mazinho [Mazinho Serafim, prefeito de Sena Madureira pelo MDB que apoia a candidatura de Ney, do PT], servi e sirvo a um projeto e vou continuar servindo até o fim ainda que alguns me abandonem, ainda que alguns me larguem no meio da caminhada. Eu quero dizer ao povo de Sena Madureira e ao povo do Acre: que eu não vou baixar a minha cabeça… que eu vou para a luta com a minha esposa, com meus filhos, com os meus amigos. E com o pé no chão, como eu estou fazendo. Tem três dias que eu não durmo, mas tem sete municípios que eu já visitei e eu vou visitar os 22 municípios do Acre de novo. Porque quando eu me coloquei à disposição para ser candidato, eu me coloquei à disposição para ajudar o meu estado. Eu não queria atacar ninguém, Mazinho, como eu não ataco até hoje. Eu não queria fazer mal pra ninguém, como eu não faço até hoje. Mas, acho que não mereço ser tão atacado como estou sendo atacado hoje. Eu não mereço. Eu só construo, eu só trabalho. Eu só ajudo as pessoas. Eu nasci e me criei na Baixada da Sobral, filho de uma professora e de um agricultor. E eu tenho muito orgulho de onde eu vim. E, na Assembleia Legislativa, Mazinho, eu sou um presidente que abriu as portas do Poder Legislativo para as pessoas mais simples. Eu sou um presidente de um poder que as pessoas mais simples não batem na porta para entrar e nem marca agenda porque a porta do meu gabinete é aberta. Desculpem o desabafo. Eu prometi que não ia fazer isso. Mas, o gesto de vocês hoje, aqui, me deixou emocionado como raramente eu fico, Mazinho”.
Destaque
Destaca-se um raciocínio que até a gramática mostra-se fatal: “… quando eu me coloquei à disposição para ser candidato, eu me coloquei à disposição para ajudar o meu estado. Eu não queria atacar ninguém, Mazinho, como eu não ataco até hoje. Eu não queria fazer mal pra ninguém, como eu não faço até hoje. Mas, acho que não mereço ser tão atacado como estou sendo atacado hoje. Eu não mereço…”
Friso
O friso maior fica por conta do trecho “eu não queria fazer mal pra ninguém, como eu não faço até hoje. Mas…” Isso, dito no calor da emoção; Isso, dito com voz embargada por quem se sente injustiçado; Isso dito por alguém que acha que está tocando o coração de multidões e vai se empolgando com a própria retórica… isso é um perigo.
Ironia
A ironia da História é que houve um tempo em que a Frente Popular orgulhava-se de ter banido da retórica da política regional o verbo beligerante; a ação que ameaça; a rotina que relacionava o ambiente da política com a crônica policial. E eis que vem da própria FPA a sugestão de que não se espantou todos os fantasmas.
Coerência
Neste mesmo espaço, foi cobrado do candidato da oposição, Gladson Cameli, uma postura de líder no processo traumático de formação da sua chapa. Cobrou-se “liderança firme” de Cameli na condução. Por coerência, é preciso que se faça a mesma referência à Frente Popular. Quem é mesmo que está conduzindo o processo? Por que não teve condições de previr os embates internos, agora expostos em praça pública?
E agora?
Os embates entre Ney Amorim e Jorge Viana ofuscam quase 30 anos de história da FPA. Um grupo político que, vê-se, não aprendeu com os erros daqueles que apeou do poder em um distante 1992, com Jorge prefeito de Rio Branco.
A questão
A questão central não é a candidatura de Ney Amorim em si. Ela nada tem de errado. É legítima. Ela mostra ao atual Palácio Rio Branco que partido político tem vida, tem uma dinâmica própria, muito maior do que a agenda de qualquer governo. Porque os governos passam. Os partidos ficam.
A questão II
O problema são as relações de poder que podem colocar em xeque a presença do partido em um dos parlamentos mais prestigiados. Ney está sentindo na pele que ninguém abre mão de poder. Há uma luta e uma conquista a serem efetivadas. O que se viu no discurso de Sena foi uma sugestão de que não há amadurecimento republicano o suficiente para isso. O caminho a se chegar ao poder revela quem o deseja. E isso vale para todos.
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