“Um dia, alguém se lembrou de mim”
Um funcionário público que não vê a hora de se aposentar para trabalhar como treinador de futebol. Essa é a descrição inicial de um profissional do futebol que tem um currículo invejável e que hoje ajuda a categoria de base do município de Rio Branco.
Por que a equipe da TV Gazeta iria fazer a gravação, a escolinha de futebol Nacional do Aroeira recebeu autorização do dono do campo para fazer a filmagem.
Mas não é assim todo dia. Os meninos treinam em quadras e sem nenhuma estrutura para as atividades. Esse é o futebol de base, que merece investimento, atenção.
Mas os meninos aproveitaram, afinal, além dos coletes e bolas novas, contaram com lições importantes de um estudioso do futebol, o treinador Nelson de Lima Silva.
Enquanto os meninos faziam os exercícios, ele explicava sobre os fundamentos do futebol. Depois, o professor, mostrava na prática, o que cada atividade exigia.
“Eu acredito que a gente tem que dar oportunidade a esses meninos. Meu pai não queria que eu jogasse futebol de jeito nenhum. Se eu posso proporcionar uma oportunidade, ajudar a lapidar um garoto desse, que tem talento, pra mandar pra fora do estado, pra melhorar a vida da família… o que eu puder fazer, vou ajudar”, disse Silva.
Nelson é funcionário público municipal. Atua na secretaria de Esportes, mas se prepara pra se aposentar e voltar a treinar equipes, exclusivamente. O currículo é extenso. Ele já foi jogador de futebol no Acre e no exterior. Começou a carreira no juvenil do Botafogo do Rio de janeiro, atuou no Acre pelo Rio Branco, Atlético e Independência.
No Sul do país, jogou em vários times de Santa Catarina e Rio Grande do Sul. A carreira como atleta terminou na década de 80, com 27 anos de idade, no Colatina do Espírito Santo. Nelson era ponta esquerda.
Depois, por 14 anos, ele dirigiu times, sendo a maior parte desse tempo, no Peru. Do país andino, ele recebeu várias comendas. E, por falar em títulos, ele carrega em uma pasta grossa inúmeros diplomas e certificados dos cursos, treinamentos e capacitações na área do futebol.
Recentemente, no campeonato Estadual, Nelson ajudou Marcelo Altino a dirigir a equipe do Humaitá. Apesar da colocação final, o time de Porto Acre fez uma boa campanha, e se destacou entre os times com mais tradição.
Sobre ser um treinador tão preparado, e que apoia times da base, ele tem uma tese. “Eu acredito que todo bom treinador profissional tem que trabalhar na base. Se ele não trabalhar a base, ele não tem estrutura sólida pra absorver o comportamento, o temperamento do jogador dentro de campo”, explica.
Agora, Nelson ajuda o técnico Antônio Camilo, com os meninos do Nacional do Aroeira. O time é de um residencial de moradias populares de Rio Branco. “Na inauguração da quadra do Jequitibá, meu time o Aroeira foi campeão lá”, afirma o técnico Camilo.
O bom resultado faz os meninos sonharem alto. “Quero ser jogador de futebol”, diz Thiago, de 12 anos.
Para Nelson, apoiar requer investimentos pensando no amanhã que pode ser promissor. “O que tiver talento, a gente botar também pra fazer um curso de espanhol, inglês, por que de repente é convidado pra fazer um teste na Europa e não sabe falar outra língua. Eu me preparei até nisso. Eu falo bem o italiano, espanhol, entendo um pouco de alemão, então tudo pra mim é mais fácil”, disse.
Os meninos fizeram uma cena pra nossa equipe, mas não possuem colete, nem material básico como bola e chuteira. “Pra mim é um orgulho muito grande trabalhar com eles. Quase todo dia, tô na quadra jogando com eles. As mães pedem pra colocar eles (sic) pra jogar, uns pequenininhos, como o Marquinhos”, explica Camilo.
E o Marquinhos, o menor da turma, afirma que a estatura não atrapalha nem um pouco o sonho de ser jogador de futebol. Ele já sabe o que quer ser e já tem referência internacional pra se orientar. “Quero ser artilheiro. Igual o Cristiano Ronaldo”, decidiu.
Para o Thiago, a admiração está em um dos astros da seleção brasileira, que atua fora do país. “Neimar”, respondeu.
“Ajudar esses meninos o que significa?”, perguntamos a Nelson. “Tudo. Pra mim é tudo. É um sonho. Aquilo que meu pai não quis eu quero fazer por esses meninos. Ajudá-los, pra que um dia eles digam: ‘Um dia alguém se lembrou de mim’”, afirma.


