Quinhentas pessoas são voluntários no projeto
No bairro Adalberto Sena, o soldado Derineudo Souza se transforma em professor. As aulas tem uma pitada de “comando militar”, para manter a turma sempre disciplinada.
Mesmo com o ar sisudo, o professor ganhou o respeito pela atenção que tem dado aos alunos. “Tem dias que ele dá um carão e logo a gente se comporta”, revela o aluno Caio José, 10.
Mas, quando a pergunta é: gosta ou não da aula de música, a resposta é unânime. “É muito legal a aula”, afirma Samuel Lima, 8. “Muito bom”, diz Gabriel Ferraz, 7.
Derineudo e a família de militares iniciaram o projeto Amigos Solidários há um ano. A iniciativa atende a quase 40 crianças de pelo menos cinco bairros. Hoje, os alunos aprendem flauta e percussão, mas daqui a um tempo, a meta é passar para o trompete e o sax.
Além do pai e do irmão, Derineudo conta com mais de 500 voluntários que ajudam a manter o projeto. Aqueles que contribuem financeiramente colaboram com a compra da merenda da turma, os uniformes, os instrumentos musicais e a organização de eventos em datas comemorativas.
“Nós fazemos o social quanto o cultural. Se tem alguma família precisando de sacolão, nos reunimos e levamos. Se não temos, vamos até ela e oferecemos nosso abraço. Podemos ajudar de qualquer forma”, disse o soldado professor.
O projeto não para por aí. O espaço ficou pequeno demais. Eles já conseguiram doação de sete computadores, mas não tem sala adequada para as aulas de informática. Uma professora de balé já se prontificou a dar aulas para as crianças, mas também não há espaço. A ideia então é expandir, levar o projeto para outros bairros, formar núcleos.
“O povo acriano é de muito bom coração. Está falando espaço pra nós continuarmos nosso trabalho. Esse núcleo vai continuar, mas tem outras comunidades que querem nosso trabalho e estamos querendo ajuda-los”, explica.
A maioria das crianças vem de famílias pobres. Em uma das atividades do projeto, grupos foram levados ao shopping da cidade. Uma das crianças revelou ao professor que era a primeira vez que visitava aquele lugar.
Diego vem de longe participar das aulas. Ele mora na invasão do Caladinho. Junto com uma ou mais mães, ele e outras crianças caminham até o bairro Adalberto Sena, pra participar do projeto, que funciona em uma sala da igreja católica do bairro. “É muito sol e ás vezes chego a passar mal”, revela o garotinho de apenas 9 anos de idade.
“Tem muitos jovens perdidos por aí. A gente traz nossos filhos para tocar flauta e eles tem um momento pra se ocupar e aprender”, comenta a mãe de uma das crianças, Nataniele Silva.
Tímido Diego revela algo tocante, quando precisa ir de sandália. “Meu pé fica todo sujo quando chego aqui”, disse.
Quem participa do projeto como voluntário, afirma que as crianças têm muito mais a oferecer do que os amigos solidários supõem doar. “É muito gratificante ver o sorriso deles. Ajudar o próximo não tem coisa melhor”, disse a estudante Amanda Santana.
Para o militar aposentado Bartolomeu Bispo, o projeto é mais uma inciativa que mostra que a sociedade não precisa esperar só do poder público, mudanças.
“Eu via muita criança caindo para o lado da marginalidade e sendo assim, aqui podem com a música aprender uma profissão, ao invés de ficar na rua aprendendo o que não devem”, afirma.
E a música gera mudanças mesmo. O Levi Gabriel, 11, por exemplo, explica o que os acordes musicais significam pra ele. “Antes a música era pouco, agora é muito sentimental pra mim”, disse.
O colega Luiz Henrique, 7, entrega a fraqueza e confirma o que a música tem gerado no amigo. “Às vezes a gente toca uma música e ele começa chorar”, revela.
A ação proposta pelos “Amigos solidários”, como o próprio nome já diz, existe através de uma corrente de solidariedade e compaixão pelo próximo. Tendo a música como atrativo, os voluntários também encontram uma oportunidade a mais de estender a mão, através do social.


