Há vários tipos de fome entre assentados
O projeto de assentamento Santa Maria foi um desses primeiros erros dos 43 anos de história do Incra no Acre. Localizado nas imediações de Cruzeiro do Sul, reúne um sem número de agricultores.
Naquele ano de 2002, os assentados passaram por uma provação. No Acre, o período de chuvas enche o peito e a alma de contradição: deixa a mata plena de vida, mas tem gosto de desespero para muita gente.
No Santa Maria, os assentados sabiam o que era a desesperança. O lugar era uma espécie de depósito de gente dividido em quadriláteros irregulares. As “linhas” (estradas vicinais/ramais) eram uma lama só.
A chuva castigava os assentados naquele ano. E, por mais que fosse difícil de compreender, havia fome no Santa Maria. Muita. Era uma espécie de danação em meio a uma região tão rica de vida.
Só visitava o Santa Maria quem tinha algum tipo de negócio por lá. Uma equipe de pesquisadores “de fora” fazia um estudo de impacto ambiental e social nos assentamentos desta parte da Amazônia. Cinco pessoas.
Mas, para o Seu Armindo, aquele movimento de gente estranha na sua “linha” foi recebido com indiferença. Os quatro homens e uma mulher chegaram bem no finzinho da tarde. Teriam que pernoitar por ali.
“Melhor deixar o carro aqui em cima”, disse Beatriz ao grupo, olhando a casa do agricultor ladeira abaixo. Deixaram a Toyota no alto e seguiram a pé.
A casa de Armindo ficava no fim da “linha”, em uma baixada. Lama para frente. Lama para trás. E uma pequena casa. Feita de tapera. Seu Armindo, ao perceber que eles vinham para conversar, entrou.
O grupo foi recebido por seis crianças. Meninos. O mais velho devia ter 11 anos no máximo. As bermudas de tergal escuro e enlameado cobriam a carne pouca e miúda. O mais novo deveria ter dois anos. Descalços. Cabelos crespos, grandes, duros. Sujos.
A mulher era a única brasileira entre os pesquisadores. Chegou falando alto, brincando com os meninos. Mas, a alegria dela ficou miúda rapidamente.
“O que a moça quer?”, grunhiu Armindo. A bermuda de tergal rasgada na coxa fina e peluda. O corpo seco. A barba inculta. A blusa estava aberta e era pequena para um peito que parecia oco. Beatriz rapidamente compreendeu o lugar.
“Viemos pelo Incra… como é o nome do senhor?”, disse, tentando alguma simpatia. “Moça, volte de onde veio. Não tenho nada a lhe dizer”, despediu-se. Ela ficou na porta do barraco vendo o homem desabar no chão, acomodando-se em folhas de bananeira, amontoadas feito cama.
Beatriz olhou para os companheiros que ficaram embaixo de um pé de manga. “Se ela ao menos tivesse avisado a insatisfação”, lamentou o homem, chorando, não suportando uma dor. A presença de uma mulher ali parece que sensibilizou o homem. “Mas, de quem o senhor está falando?”, preocupou-se Beatriz. “O senhor está sentindo alguma coisa?Tenha calma, por favor”.
O homem chorava. Os meninos rodeavam a mulher à porta da casa. “Vá embora, moça. Me deixe aqui com esse bando”, dizia Armindo entre choro e desespero.
Beatriz abriu a bolsa. Havia comida. Pão, mortadela, queijo, biscoito, bolacha. Os seis avançaram feito bichos. A pesquisadora nunca esqueceu a imagem. Ao subir a ladeira cheia de lama, voltou-se para ver a cena: as seis cabeças se trombando na busca do melhor bocado.
Beatriz só soube, anos depois, que Armindo fora abandonado pela esposa. Mulher jovem, bonita. Ele era um agricultor “de boa mão”: sabia cultivar a terra como poucos. “Mas, a menina gostava mais dos rendimentos da venda da colheita do que de suar o corpo pra lavrar a terra”. Fugiu. Abandonou seis e deixou um morto.


