Empreender: verbo conjugado em outros tempos empresariais
Entre outras coisas, anedotas expõem algumas verdades. Uma delas, por exemplo, mostra como alguns empresários acrianos, amparados por uma boa dose de astúcia, foram acumulando dinheiro ao longo do tempo.
Contam os empreendedores mais antigos que o velho Tuffic Assmar viu com irritada desconfiança a chegada da eletricidade em tempo integral a Rio Branco. A Casa Assmar era uma das que mais vendia lamparinas e lampiões na cidade. Era concorrente direta da Casa Yunes, cujo proprietário, Camilo Yunes, também se incomodava com aqueles movimentos do governo no setor elétrico.
Com energia elétrica em tempo integral, ninguém mais precisaria nem de lamparinas e nem de lampiões. Os dois objetos, de uma hora para outra, estavam prestes a se tornar inúteis.
O fato é que o tempo foi passando e as lamparinas e lampiões se empoeirando “no prateleira” da Casa Assmar. Estoques inteiros sem vender. Na loja do velho Tuffic, havia uma parede repleta (de cima a baixo) só de lampiões e lamparinas.
Tuffic pensou… pensou. Chamou cinco adolescentes do bairro Cidade Nova. “Olha! Vocês vão até ‘o loja’ do Yunes e pergunta todo dia: ‘Quanto custar lamparina, Sr. Yunes’? Todo dia mesmo, hã”!?, orientou, cheio de sotaque e gramática própria.
E assim foi: dia após dia, a molecada se revezava na pergunta, deixando um sussurro no meio da boca: “Tá caro. Lá no Seu Assmar tá mais barato”! A frase final era malandramente despretensiosa, como quem já vai saindo da loja. Dita no momento certo e no tom certo, aquilo era um torpedo.
O velho Yunes, com estoque de lamparina baixo, se invocou com a situação. Foi até a loja do amigo. Viu as prateleiras e a parede cheias de lamparinas e lampiões. “Bom dia! Vendendo muita lamparina?”, perguntou Yunes. Assmar, com sorriso invisível: “Muito. Nunca vi sair tantas”, calculou.
“O amigo não me venderia um lote?” A negativa veio em tom irritadiço. “De forma alguma! Tô vendendo bem! Muita saída! De jeito nenhum!”, bronqueou Assmar. “Mas, homem, você está com tantas! Um lote a menos…”, ponderou Camilo.
“Só vendo se for tudo”, atirou Tuffic. No mesmo dia, o negócio foi concluído. O estoque todo passou para as prateleiras da Casa Yunes.
*Texto reeditado, originalmente escrito para o suplemento Acre Economia, do jornal A Gazeta.


