Expressão de fé relembra um Acre distante
Milhares de fieis começam a lotar a Paróquia de São Sebastião em Xapuri. O santo é o padroeiro da cidade e a celebração “d’o dia 20 de janeiro” faz o visitante voltar no tempo.
O cheiro de lavanda com suor e vela queimada, a venda do refresco nas imediações da igreja, o Padre José com a batina sempre empoeirada e as árvores sempre bem podadas do centro da cidade formaram o imaginário de uma geração de acrianos.
“Ir para o 20” em Xapuri era parte de uma aventura. A começar pela estrada. Saia-se por volta das seis da manhã da rodoviária de Rio Branco nos ônibus das empresas Lameira ou Ribeiro.
A chegada em Xapuri não tinha hora certa. Ao se aproximar do “Ranofo” já havia uma espécie de encanto: matava-se a fome e a vontade de ir ao banheiro. “Agora tem outro tanto pra frente”, diziam comumente. E o menino olhava a estrada com o céu nublado e ameaçador.
Muito mais à frente passava-se pela “Serraria do Padre”. Era um prédio medonho, hoje em ruínas com uma vila que teima em crescer ao redor. Era um mar de lama. E o menino sacolejava de um lado para o outro. Espremido.
O Entroncamento era um “quase chegando”. Já era quase noite. Doze horas de sofrimento. Os homens todos com o corpo enlameado de tanto “descer pra empurrar”. Parecia que quando se entrava na estrada de Xapuri propriamente dita, o sofrimento aumentava. Era um sufoco anual. Que fé era aquela que exigia tanto esforço? O menino não entendia.
A fumaça de cigarro (à época, era permitido fumar nos ônibus) a ausência de banheiros, os passageiros em pé, o cheiro de suor, a lama, crianças chorando. Era um terror incompreensível. Ao menos as janelas podiam ser abertas.
Mas, quando menos se esperava, o chão parecia ficar mais regular e o ônibus parecia ficar mais veloz. “Valhei-me, meu São Sebastião! Chegamos em Xapuri!” Havia uma espécie de alegria coletiva e a “Princesinha do Acre” se mostrava toda aos visitantes: as luzes em tom amarelado, com os pés de bem-te-vi bem cuidados, limpa. Depois de tanta chuva, lama, empurra empurra, desce do ônibus, tira do atoleiro, sobe no ônibus, mais chuva… chegar a Xapuri era praticamente desfilar por Paris.
Hoje, olhando os fieis humildemente expressando a fé diante da grandeza do santo, há um pouco de uma Xapuri já quase esquecida: se o fiel se embrenhar no meio da procissão, fechar os olhos e deixar-se levar pelas ladainhas e incelências, volta-se no tempo. Muita coisa mudou: para pior e para melhor. Só o santo continua o mesmo: gigante e guerreiro.





