“Por que o torcedor não tem ido aos estádios?”
Eu sou do tempo (e olha que não faz tanto tempo assim) que a torcida lotava o lendário José de Melo, em especial as arquibancadas do Vietnã (tinha esse nome porque era lá onde soltavam as bombas na hora do gol) para assistir aos jogos do Campeonato Acreano.
O estádio tinha acomodações modestas e o gramado era irregular. A iluminação atrapalhava a visão do goleiro. Mas, sobrava emoção aos jogos do estadual. Como era atleta das categorias de base do Rio Branco, tinha acesso gratuito às dependências do estádio e não perdia um jogo sequer.
Os clubes eram recheados de bons jogadores. Cheguei a ver de perto a categoria de atletas como Siqueira, Mariceudo, Rei Artur, Venícius, Paulo Henrique, Papelim, Gilmar Sales, Chicão e tantos outros que desfilaram seu futebol numa época onde as equipes tinham até charanga e torcida organizada. Eu estou falando da década de 90.
Muita gente comentava (torcida e imprensa esportiva) que o futebol do Acre precisava de novos estádios para se desenvolver. E isso era fato! Então, em dezembro de 2006, eu participei já como repórter de pista da transmissão histórica (realizada numa parceria entre TV Aldeia e TV5), para os 22 municípios acrianos, da inauguração da Arena da Floresta. Quase 20 mil pessoas se espremeram nas arquibancadas (daquele tempo o futebol não chamava tanta atenção do MPE) para assistir a Rio Branco 2 x 1 Seleção Sub-20.
Quatro anos depois, foi à vez do presidente da Federação Acreana de Futebol, advogado Antônio Aquino Lopes, inaugurar o Florestão com capacidade para cerca de 10 mil pessoas. Pois bem, os estádios (em especial a Arena da Floresta) ficaram lindos. Quando os grandes clubes vêm jogar aqui, pela Copa do Brasil, não poupam elogios às arenas.
Mas, por que o torcedor não tem ido aos estádios, mesmo com equipamentos mais modernos?
De acordo com um estudo da Puri Consultoria, que analisou o púbico de 25 estaduais pelo país, em 2014, o Campeonato Acreano conseguiu perder até para Rondônia (que nem tem estádio moderno) em questão de torcida. O menor público do estadual foi registrado na partida Alto Acre 3 x 1 Galvez: 39 pagantes. E o melhor público pagante foi na decisão do certame entre Atlético 2 (2) x 2 (3) Rio Branco: 3.678 pessoas foram ao Arena da Floresta ver o título do Estrelão. A média geral de público é assustadora: 269 torcedores por jogo.
Em 2015, a Federação de Futebol alterou os dias de jogos, que durante a disputa do primeiro turno foram das quartas e domingos, para terças e sábados. Até agora a mudança parece não ter surtido o efeito esperado. Está provado que não são apenas bons estádios que trarão o torcedor de volta. É certo que a concorrência com a TV aberta e fechada (com a grande oferta de jogos) é desleal.
Acredito que a falta de investimentos nas categorias de base para revelar futuros craques e a ausência de clubes tradicionais e de camisa forte como Juventus e Independência são fatores que podem ajudar a explicar esse momento de vacas magras no futebol local.
Talvez tenha chegado o momento de todos que fazem o futebol (clubes, Federação, torcida, Crônica Esportiva e Governo do Estado) realizarem um grande fórum para debater o atual cenário e tentar encontrar alternativas e soluções para o resgate do futebol acriano, que atualmente se encontra relegado à quarta divisão do Campeonato Brasileiro.
Senildo Melo – Jornalista, formado em Educação Física pela Universidade Federação do Acre (UFAC), Pós-Graduado em Comunicação, Cronista Esportivo filiado à Associação Brasileira de Cronistas Esportivos (ABRACE) desde o ano 2000 e escreve aos domingos sobre esporte no site Agazeta.net.


